A Semana de Alto Nível da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, realizada entre os dias 22 e 23 de setembro, ficou marcada não só pelos debates sobre o clima, mas também pela predominância de temas que desviaram o foco da crise ambiental global. Guerras, disputas geopolíticas e o avanço da inteligência artificial (IA) acabaram roubando espaço das discussões climáticas, revelando as profundas fissuras entre os principais atores mundiais.
Guterres faz último apelo por ação climática
No centro dos debates, o secretário-geral da ONU, António Guterres, utilizou o evento "High-level Event on Climate Action and the Just Transition" para reforçar a urgência de abandonar os combustíveis fósseis. Segundo Guterres, este é o momento histórico em que a humanidade tem as ferramentas necessárias para encerrar a era do petróleo e gás, destacando que somos "a primeira geração com as ferramentas para encerrar a era dos combustíveis fósseis e a última que pode evitar a catástrofe climática".
O secretário-geral cobrou do G20 — grupo responsável por cerca de 80% das emissões globais de gases de efeito estufa — liderança em um processo de descarbonização, e defendeu a necessidade de triplicar a capacidade de fontes renováveis. Ele também colocou ênfase no financiamento climático firmado na COP29, em Baku: US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, dos quais pelo menos US$ 300 bilhões deveriam ir para países em desenvolvimento.
EUA minimizam emergências climáticas
Em direção oposta, membros do governo dos Estados Unidos minimizaram a emergência climática. Em seu discurso diante da Assembleia da ONU, o presidente Donald Trump praticamente ignorou o clima, ironizando quem alerta sobre o aquecimento global ao associar o tema aos recentes debates sobre IA. Já o secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, não só rejeitou restrições à exportação de diesel em meio à alta dos preços, como relativizou impactos do aquecimento ao afirmar que "morre mais gente de frio do que de guerra".
Turquia antecipa campanha da COP31, mas clima some dos discursos
Diante da visibilidade global em Nova York, a Turquia — anfitriã da próxima COP31 – investiu em publicidade massiva sobre seu papel no futuro climático. Telões pela cidade ecoaram lemas como "O futuro do mundo está na Turquia", enquanto a presidência turca lançou a chamada meta "35 por 35", prevendo elevar a eletricidade para 35% do consumo final até 2035. No entanto, especialistas apontam desafios para que o país cumpra tal promessa em ritmo acelerado e veem a meta com ceticismo.
Apesar desse protagonismo na imagem, o tema clima acabou quase ausente dos grandes discursos políticos turcos, que priorizaram segurança regional e reformas na própria ONU. Nos bastidores, cresce a expectativa de uma COP31 esvaziada e pouco relevante diante de crises paralelas dominando a agenda global.
Brasil fica à margem da agenda climática
Mesmo sendo anfitrião da COP30, o Brasil não participou ativamente do evento climático em Nova York, o que chamou a atenção de observadores internacionais. Segundo fontes próximas à delegação brasileira, espera-se presença reduzida do país na COP31, prevista para novembro em Antália.
Diante desse cenário de divergências e esvaziamento do tema climático, especialistas e sociedade civil ressaltam a necessidade de retomar a centralidade da crise ambiental global nas próximas agendas multilaterais. Para mais informações atualizadas, visite amazonclimate.live

