As previsões apocalípticas feitas pelo pastor Alex Alves durante entrevista no Flow Podcast em agosto, sobre o chamado "Super El Niño" no Brasil, foram categorizadas como desinformação por cientistas e checadores. O conteúdo, que viralizou nas redes sociais e chegou a ser visto por mais de meio milhão de pessoas, misturou teorias conspiratórias, relatos sem fundamento científico e imagens geradas por inteligência artificial para criar medo em torno do fenômeno climático.

Fenômeno natural com intensificação humana

De acordo com especialistas entrevistados pelo projeto Comprova, o El Niño é um fenômeno natural recorrente, marcado pelo aquecimento acima de 2°C das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial a cada dois a sete anos. Embora possa ganhar intensidade devido a ações humanas como o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis, não há ciência que respalde previsões de grandes catástrofes repentinas ou fenômenos paranormais relacionados.

Segundo Werton Costa, climatologista e diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Piauí, declarações como as de Alves — que apontam para uma suposta "anomalia eletromagnética" sobre o Sul do Brasil e para eventos catastróficos generalizados — confundem o público. Costa destaca que o agravamento dos efeitos do El Niño não decorre apenas de sua natureza, mas da vulnerabilidade social, desigualdades e ocupações irregulares em áreas de risco, aspectos que potencializam danos.

Teorias conspiratórias e mitos desmentidos

Alex Alves afirmou, sem provas, que haveria 25 dias até uma catástrofe no Sul, além de seca extrema em outras regiões e menção a suposta "arma mágica" de destruição em massa nas eleições dos Estados Unidos. Ele também relacionou o aparecimento do peixe-remo a sinais do "fim do mundo", reforçando lendas e mitos sem bases científicas. Pesquisadores explicam que o peixe-remo, animal que habita águas profundas, não está relacionado ao El Niño nem a eventos sobrenaturais — estudos recentes negam qualquer conexão entre a presença desse peixe e a ocorrência de terremotos ou desastres naturais.

Outra menção diz respeito à Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS), uma área de campo magnético enfraquecido que afeta satélites, sendo fenômeno estudado geologicamente, sem correlação com eventos climáticos do El Niño.

O papel da desinformação digital

Júlia Dias, pesquisadora de desinformação ambiental no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), avalia que esse tipo de conteúdo viral associa elementos factuais descontextualizados com recursos de IA, reforçando a crença em teorias conspiratórias. "O vídeo mistura imagens e discursos para causar impacto emocional e consolidar versões falsas como verdades ocultas da ciência", pontua.

O Comprova apurou ainda que não há registros das declarações sobre "armas mágicas" atribuídas a figuras políticas estrangeiras e lamentou a não resposta do pastor à apuração dos fatos.

Especialistas são unânimes em afirmar que ameaças catastróficas globais, efeitos paranormais ou eventos apocalípticos não têm relação comprovada com o El Niño. O consenso científico reforça a importância da informação qualificada e do combate à desinformação, sobretudo em momentos de atenção climática elevada.

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