O fenômeno El Niño voltou com força em 2026, registrando temperaturas inéditas nas águas do Oceano Pacífico e acirrando debates sobre a preparação do Brasil para eventos climáticos extremos. Em audiência na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, o professor Paulo Antunes Horta, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou o agravamento do El Niño este ano e a necessidade de uma reação rápida do poder público.
El Niño: um desafio climático crescente
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas equatoriais do Pacífico, impactando padrões de chuva e temperatura em vários continentes. O evento atual, iniciado em junho, já apresenta sinais de força extraordinária: somente em 19 de setembro, a temperatura da superfície marinha chegou a 3°C acima da média histórica, segundo a Organização Mundial de Meteorologia. Esse valor é o maior já registrado em um só dia, no contexto do fenômeno.
Professor Horta alertou que o El Niño de 2026 pode se igualar a episódios históricos de destruição, como o de 1877, responsável por milhões de mortes globais associadas à fome, sede e doenças. Para ele, "esse El Niño já desponta como um dos mais intensos já documentados, e seu auge está previsto para novembro".
Impactos previstos para o Brasil
Os efeitos já estão sendo sentidos no Brasil. As previsões apontam seca intensa na região centro-norte, aumento expressivo das chuvas no centro-sul, além de calor recorde em todo o país. Dados do Climate Impact Lab projetam cerca de 450 mil mortes mundiais devido a ondas de calor nos próximos seis meses — com o Brasil listado entre os cinco países mais afetados.
De acordo com Horta, os riscos vão além do clima: "Podemos ter queda expressiva na produção agrícola, prejuízos à pecuária, insegurança alimentar, risco à pesca e à maricultura, além de impactos econômicos generalizados".
A urgência das ações públicas e o papel do parlamento
O professor defendeu que o poder público precisa identificar vulnerabilidades nos municípios e garantir alimentação, água, energia e infraestrutura de proteção civil, antevendo enchentes e secas severas. A preocupação é que, mesmo com leis robustas em vigor, como destacou a consultora legislativa Kenya Simões (Câmara dos Deputados), a execução ainda deixa a desejar: "Já temos planos de contingência, estratégias de evacuação, abrigos, sistemas de alerta e protocolos de gestão de risco definidos por lei. O desafio está em colocar tudo isso em prática", pontuou.
O Executivo federal publicou recentemente o Plano Clima Adaptação e planos setoriais para riscos e desastres, além de instalar uma sala de situação coordenada pela Casa Civil. Também houve reforço de orçamento para prevenção, e medidas como auditorias do Tribunal de Contas da União identificaram a necessidade de fortalecer defesas civis locais e elevar a eficácia dos alertas.
Próximos passos e monitoramento constante
Paralelamente à atuação do Legislativo e Executivo, é fundamental que a vigilância sobre os efeitos climáticos seja permanente, com os municípios preparados para responder à intensidade cada vez maior desses eventos. O professor Horta ressaltou: "Não há mais espaço para retrocessos na legislação ambiental. O parlamento precisa liderar o enfrentamento dessas tragédias".
Diante da recorrência e gravidade do El Niño, a chamada à ação não se limita à adequação de leis, mas à sua efetiva implementação em todas as esferas de governo, visando proteger vidas e preservar a estabilidade econômica nacional.
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