O processo de desertificação, que transforma áreas férteis em terras incapazes de sustentar vida vegetal e animal, avança rapidamente em várias regiões do Brasil. Segundo dados recentes, cerca de 39 milhões de brasileiros já estão diretamente ameaçados pela degradação do solo, especialmente em áreas rurais e comunidades tradicionais.

O que é desertificação e onde ocorre no Brasil

Diferente da imagem típica de dunas e areias, desertificação é um processo gradual de esgotamento do solo, causado por práticas agrícolas inadequadas, desmatamento, uso intensivo da terra e mudanças climáticas. No Brasil, aproximadamente 18% do território nacional é considerado suscetível à desertificação. O fenômeno é mais intenso nos nove estados do Nordeste, mas também atinge regiões do norte de Minas Gerais, Espírito Santo, nordeste do Rio de Janeiro e noroeste do Mato Grosso do Sul.

Entre 2000 e 2020, a área impactada por desertificação saltou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de km², um acréscimo comparável ao território de Pernambuco, Paraíba e Alagoas juntos. Em 2023, estudos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) identificaram a primeira região árida do país, abrangendo 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia.

Impacto na Caatinga e na vida das pessoas

A Caatinga, bioma tipicamente nordestino, sofre os efeitos mais graves. Cerca de 11% desse bioma está em estado crítico e severo de degradação, com 42,6% de sua vegetação nativa já suprimida. Mesmo pressionada, a Caatinga desempenha papel essencial na regulação do clima: estudos do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) mostram que ela retém 58% do carbono que capta e em 2022 foi responsável por metade do sequestro líquido de carbono no Brasil.

A desertificação expõe agricultores familiares, quilombolas, povos indígenas e outras comunidades à insegurança alimentar e hídrica, tornando campos improdutivos e escassos em água.

Medidas do governo e sociedade civil

O governo brasileiro lançou, em março de 2026, o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação (PAB-Brasil 2025–2043), integrando áreas de meio ambiente, infraestrutura e inclusão produtiva. Já o Programa Recaatingar, anunciado em junho, pretende recuperar 10 milhões de hectares da Caatinga nas próximas duas décadas, com metodologias desenvolvidas junto às comunidades locais, como sistemas agrossilvipastoris e agroflorestais.

Essas técnicas aumentam em até 85% a biomassa da região e previnem a erosão, recuperando até 100 toneladas de solo por hectare ao ano. Organizações da sociedade civil, como a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), também contribuem com a construção de cisternas, barragens subterrâneas e fortalecimento da produção de sementes crioulas adaptadas ao clima.

Perspectivas e desafios

Especialistas defendem a inclusão da Caatinga em fóruns internacionais, como a COP17 de combate à desertificação na Mongólia. O avanço da desertificação continuará como desafio central para a segurança alimentar, a permanência das populações rurais e a proteção da biodiversidade.

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