Na 17ª Conferência da ONU de Combate à Desertificação, que ocorre em Ulaanbaatar, na Mongólia, o Brasil apresentou metas audaciosas para proteger 367 milhões de hectares de terras contra a crescente aridez. No entanto, o evento enfrenta um impasse diplomático significativo, com os Estados Unidos, sob liderança de uma postura conservadora, se opondo à criação de um novo marco global que se comprometa no combate à desertificação após 2030. Essa resistência é especialmente preocupante, dado o aumento das secas e ondas de calor que afetam diversas regiões do hemisfério norte.
O cenário da conferência
A COP da Desertificação, que acontece bienalmente, tem se tornado um espaço crucial para discutir a preservação de solos em regiões vulneráveis, muitas das quais são frequentemente negligenciadas. O Brasil, que anteriormente participava de forma discreta, enviou uma delegação recorde de cerca de 100 representantes, incluindo membros do Ministério da Agricultura. Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que as áreas com clima semiárido no Brasil aumentaram aproximadamente 75 mil km² por década.
Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, destacou que a degradação das terras tem impactos diretos na economia global, na segurança alimentar e na disponibilidade de água. Ele expressou preocupação sobre a possibilidade de criar um instrumento vinculante que aborde a desertificação, mencionando as dificuldades nas negociações, exacerbadas pela postura dos EUA.
Desafios e oportunidades
Um dos principais pontos de discórdia nas negociações é o financiamento para as medidas de combate à desertificação, especialmente em países em desenvolvimento. Enquanto nações africanas clamam por soluções rápidas, os países desenvolvidos, incluindo os EUA, argumentam que já destinam bilhões para a descarbonização. O Brasil, por sua vez, defende um equilíbrio nos investimentos, enfatizando a necessidade de direcionar recursos também para a conservação e regeneração do solo.
Com a conferência se aproximando do fim, programada para encerrar nesta sexta-feira (28), o governo brasileiro reafirmou seu compromisso com metas elaboradas mais de uma década após a adoção do primeiro compromisso global sobre o tema. As medidas propostas incluem demarcação de territórios indígenas e unidades de conservação, além de programas de combate a incêndios e promoção de práticas agrícolas sustentáveis.
Carlos Magno de Moraes, coordenador executivo do Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, ressaltou a importância de captar recursos para implementar as metas. “O Brasil, sendo uma das 10 maiores economias do mundo, deve destinar recursos nacionais para isso”, afirmou.
Por que isso importa
As decisões tomadas na COP da Desertificação têm implicações diretas para o futuro ambiental do Brasil e do mundo. A desertificação não é apenas uma questão local; ela afeta a segurança alimentar e hídrica global, refletindo na saúde econômica de diversas nações. Com 28% do território brasileiro apresentando algum nível de degradação, a urgência em desenvolver políticas eficazes para reverter essa situação é evidente. A resistência dos EUA pode comprometer os avanços necessários para enfrentar esse desafio global.
O que vem a seguir
A conclusão da COP da Desertificação poderá definir os rumos da política ambiental global em relação à aridez e desertificação. O Brasil, ao estabelecer metas ousadas, busca não apenas proteger seus recursos naturais, mas também liderar um movimento internacional por um compromisso mais efetivo. O desafio agora será garantir que essas metas sejam acompanhadas de recursos adequados e de um engajamento diplomático que possa superar as barreiras atuais. A implementação das políticas propostas será observada de perto, tanto dentro quanto fora do país.
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