O setor varejista brasileiro enfrenta um cenário desafiador em 2026, afetado pelo consumo mais fraco, crédito oneroso e recordes de endividamento entre as famílias. Nos últimos trimestres, empresas reconhecidas como Magazine Luiza, Renner e C&A registraram resultados abaixo do esperado, enquanto o índice de endividamento atingiu o patamar mais alto desde o início da série histórica.

Indicadores de prejuízo e revisão de metas

O Magazine Luiza teve um prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o lucro obtido no mesmo período do ano anterior. Já a Renner reduziu sua expectativa de crescimento de receita para este ano, agora projetando expansão entre 4% e 8% – antes, esperava de 9% a 13%. O fluxo de clientes menor nas lojas físicas, especialmente durante a realização da Copa do Mundo, e um ambiente macroeconômico adverso foram os principais motivos da revisão. A C&A, ainda que tenha apresentado avanço de 4,3% no lucro líquido ajustado e vendas de vestuário de R$ 1,9 bilhão, ficou aquém das expectativas do mercado, apontando juros elevados como uma das principais dificuldades.

Segundo Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, "o varejo talvez seja o setor mais penalizado pelo nível elevado dos juros, que permaneceram altos por muito tempo. As famílias continuam bastante endividadas e a concorrência é intensa." O resultado, ressalta ele, pressiona todo o setor e amplia preocupações quanto ao ritmo da economia no curto e médio prazos.

Endividamento familiar em patamar recorde

Dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) indicam que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho, o maior índice da série histórica. Ao todo, em média, cerca de 29,5% do orçamento das famílias está comprometido com dívidas, com um tempo médio de pagamento de 7,2 meses. A CNC destaca que o crédito, embora importante para impulsionar o consumo, se torna preocupante quando há dificuldade dos lares em honrar pagamentos.

O cenário de endividamento é potencializado pelos juros ainda elevados: mesmo após recente redução da taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano, os efeitos positivos sobre o crédito tendem a ser lentos, como alerta Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.

Pressão dos juros prolongada

Especialistas e executivos do setor ressaltam que a taxa de juros elevada afeta o varejo duplamente: limita o acesso ao crédito para consumidores e encarece as despesas financeiras das empresas. Para o Magazine Luiza, segundo o diretor financeiro Roberto Belissimo, o prejuízo do trimestre está "muito influenciado pela taxa de juros elevada". O BTG reforça essa análise, destacando a intensa competição do e-commerce, o que amplia a pressão sobre as margens de lucro.

O efeito dos juros altos não se limita ao varejo tradicional. O Grupo Toky, dono da Tok & Stok e da Mobly, entrou em recuperação judicial no início do ano, e o Pão de Açúcar vem renegociando dívidas. O especialista da Manchester Investimentos, Felipe Cima, explica: "Juros elevados e endividamento familiar reduzem a atratividade do setor de varejo brasileiro".

Desempenho e perspectivas do setor

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE aponta aumento acumulado de 1,7% nas vendas do varejo até maio de 2026, ritmo menor que o observado até março (2,4%). O segmento de móveis foi especialmente penalizado, apontando queda de 3,7% nas vendas do ano. Já no varejo alimentar, empresas como o Assaí tiveram aumento no lucro, mas reportaram que a inflação de alimentos e o endividamento dos consumidores afetaram a composição da cesta de compras.

O ambiente adverso já impacta avaliações do setor financeiro, que prevê maior restrição na concessão de crédito. Para os próximos meses, apesar de possíveis cortes residuais na Selic, a expectativa é de lenta melhora nas condições do varejo.

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