O Brasil já começa a se preparar para o chamado Super El Niño, fenômeno climático previsto para o fim de 2026 e início de 2027, que promete intensificar extremos como estiagens e temporais em diversas regiões do país. Diante desse desafio, o governo federal passou a mobilizar a sociedade civil organizada em uma iniciativa inédita que conecta ministérios, gestores locais e representantes de comunidades nas cinco regiões brasileiras.
Encontros regionais debatem vulnerabilidades e soluções
A iniciativa contempla sete encontros regionais, iniciando pelo Rio de Janeiro e passando por cidades estratégicas como Manaus (AM), Fortaleza (CE), Santarém (PA), Campo Grande (MS), Petrolina (PE) e Porto Alegre (RS). O objetivo central é tanto apresentar ações governamentais de preparação a desastres como ouvir as demandas e experiências das organizações presentes nos territórios mais vulneráveis. Segundo Marcelo Fragoso, chefe de gabinete da Secretaria-Geral da Presidência (SGPR), a participação da sociedade civil "é fundamental, pois essas organizações costumam ser as primeiras a atuar em momentos críticos".
Estratégias inclusivas para políticas públicas mais eficazes
Durante os encontros, diferentes ministérios, incluindo a Casa Civil, Desenvolvimento Agrário, Cidades, Meio Ambiente (MMA), Saúde e Defesa Civil, estão articulando planos conjuntos. Destaca-se o foco nas áreas urbanas de maior risco, como as encostas e periferias, que mais sofrem com as cheias e deslizamentos. De acordo com Vitor Araripe, secretário nacional de periferias do Ministério das Cidades, a estratégia une grandes obras de infraestrutura à capacitação e engajamento comunitário, a exemplo da campanha Cidade Sem Risco.
Além disso, o Ministério das Cidades está retomando os Planos Municipais e Comunitários de Redução de Risco, incorporando agora análises sobre adaptação às mudanças climáticas. As contribuições vindas das reuniões regionais devem aprimorar ainda mais essas políticas.
Vozes dos territórios apontam para justiça climática
A convocação da sociedade civil traz para o centro do debate lideranças de favelas, periferias e comunidades tradicionais, como destacou Marilena Matos, figura ativa na Baixada Fluminense. Para ela, a inovação está em criar canais diretos entre quem sente os efeitos do clima e as esferas decisórias. A importância de ampliar a adaptação climática foi ressaltada também por representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Alternativa Terra Azul, que apontaram que a real questão é o agravamento da crise ambiental no Brasil.
"Quem morre em desastres são as populações pobres, pretas e periféricas. Precisamos de políticas públicas adaptadas à realidade de quem está na base da sociedade", defendeu Pedro Graça Aranha, pesquisador ligado à Fiocruz.
Participação social e construção de políticas regionais
A iniciativa federal busca não apenas informar sobre previsões e riscos, mas construir, com quem tem experiência local, planos regionais diferenciados — já que o mesmo evento climático pode gerar seca em uma parte do país e chuvas intensas em outra. A aproximação entre governo e movimentos sociais tem sido vista como fundamental para avanço real de políticas públicas efetivas para enfrentar a crescente crise do clima.
Aos poucos, as ações integradas entre Estado e sociedade civil tornam-se peça-chave para que municípios e comunidades estejam melhor preparados diante dos desafios do El Niño e de outros eventos extremos invariavelmente agravados pela mudança climática.
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