Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) alerta que episódios de seca na Bacia do Rio Paraíba do Sul tendem a se tornar menos frequentes, porém significativamente mais longos e graves nas próximas décadas. O cenário preocupa porque essa bacia supre mais de 20 milhões de pessoas, principalmente nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro.
Projeção aponta secas prolongadas e mais severas
A pesquisa, que avaliou diferentes modelos climáticos em combinação com dados históricos, indica uma mudança preocupante no perfil das estiagens ao longo do século XXI. O padrão apontado sugere que, embora as secas possam ser menos comuns, quando ocorrerem, sua duração e severidade devem aumentar, colocando ainda mais pressão sobre reservatórios estratégicos.
Casos como o de Paraibuna, área crucial na parte alta do sistema, ilustram a gravidade do quadro futuro. De acordo com o estudo, a duração média das secas na região, que era de oito meses em períodos recentes, pode chegar a até 22 meses (de 2061 a 2100), dependendo do cenário analisado.
Impactos para grandes cidades e riscos à segurança hídrica
A barragem de Santa Cecília, em Barra do Piraí (RJ), destaca-se como ponto de atenção, pois parte de sua água é desviada para o Sistema Guandu, essencial ao abastecimento da Grande Rio. Segundo o levantamento, indicadores de severidade das estiagens podem saltar de 7,92 no passado para 58,46 no fim do século em cenários de altas emissões de gases do efeito estufa.
Essa elevação na severidade pode diminuir consideravelmente o volume de água disponível para transposição, exigindo operações mais restritivas dos reservatórios e elevando o risco de comprometimento do abastecimento urbano. O pesquisador Lucas Pereira de Almeida, da UERJ, comenta que "o sistema hídrico pode enfrentar períodos críticos mais difíceis de administrar", destacando a necessidade de adaptação e preparação para cenários extremos.
Incertezas, vulnerabilidades e a necessidade de gestão
O estudo buscou reduzir as incertezas nas projeções ao comparar o desempenho de vários modelos climáticos com as secas do passado, priorizando os mais próximos da realidade observada. Ainda assim, há incertezas associadas à evolução das emissões globais e à resposta local das precipitações.
A professora Rosa Formiga, do Departamento de Engenharia Sanitária da UERJ e coautora do estudo, ressalta que o problema não decorre apenas das mudanças climáticas. Segundo ela, "nossa vulnerabilidade resulta tanto do estressor climático quanto de pressões já existentes sobre os recursos hídricos, como poluição, demanda crescente e uso desordenado da terra".
Entre as medidas sugeridas para fortalecer a resiliência dos sistemas, estão a revisão das regras de operação dos reservatórios, ampliação do monitoramento, redução das perdas, diversificação de fontes e elaboração de planos de contingência.
Desafios e próximos passos para reduzir o risco
Os autores destacam que tratar o risco hídrico como tendência e não como uma certeza absoluta é fundamental para o planejamento público e para a formulação de políticas. A abordagem preventiva e a discussão pública sobre adaptação e alternativas são vistas como caminhos essenciais para superar desafios que já afetam outras regiões brasileiras.
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