O cenário político alemão vive dias de incerteza com a permanência de Friedrich Merz como primeiro-ministro cada vez mais questionada. Após pouco mais de um ano e meio à frente da maior economia da Europa, Merz enfrenta recorde de insatisfação popular e resiste a uma crescente pressão interna, enquanto observa a extrema direita ampliar seu espaço no país.
Popularidade em queda e desafios internos
Merz, membro da União Democrata Cristã (CDU), está em meio a um período turbulento, marcado por baixíssima aprovação: 83% dos alemães se dizem insatisfeitos com sua atuação, segundo pesquisas recentes. Sua gestão, dificultada por uma economia estagnada desde a pandemia, sofre com a falta de avanços em reformas consideradas cruciais, especialmente a complexa reforma da Previdência, atualmente sob intenso escrutínio não só da oposição, mas também de aliados regionais.
A proposta de extinguir a aposentadoria antecipada aos 63 anos – benefício desenhado para trabalhadores de longa contribuição – gerou forte resistência, principalmente entre eleitores do leste alemão, onde as condições socioeconômicas seguem abaixo da média nacional. Essa reação é impulsionada por líderes estaduais, os chamados ministros-presidentes, que ameaçam vetar a reforma no Bundesrat, a câmara alta do Parlamento.
Avanço da AfD e dilema das coalizões
O quadro político complica-se com a firme ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita. Nas próximas eleições regionais, especialmente em Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, projeções indicam vitória da AfD, o que pode, pela primeira vez no pós-guerra, colocar o partido no comando de um Parlamento estadual. O crescimento nas intenções de voto – hoje 28% para a AfD contra 21% da CDU – aumenta os riscos para Merz e sua coalizão.
A possibilidade de uma coalizão com partidos de esquerda, considerada para enfrentar a força da AfD, coloca os democrata-cristãos em dilema histórico, já que a Esquerda é vista como antagônica à CDU. Sem “bônus de primeiro-ministro” – privilégio político que beneficiou antecessores –, Merz vê sua base tradicional enfraquecida, segundo Manfred Güllner, diretor do Instituto Forsa.
Reformas, crise e possível sucessão
Internamente, fissuras já ficaram evidentes após a recente troca no gabinete, desencadeada pelo caso pessoal envolvendo Jens Spahn e a discussão sobre barriga de aluguel. Tais episódios ampliam a sensação de instabilidade política, alimentando especulações sobre a saída precoce de Merz e apontando nomes como Hendrik Wüst, governador da Renânia do Norte-Vestfália, como possível sucessor.
Mesmo diante dos rumores, líderes da coalizão, como Markus Söder (CSU), defendem a permanência de Merz, argumentando que sua saída levaria não só à fragmentação do campo conservador, mas também à possibilidade de uma nova eleição federal com avanço ainda maior da AfD.
Com as férias do primeiro-ministro perto do fim, a Alemanha observa apreensiva quais serão os próximos capítulos de uma liderança questionada, pressionada tanto pela oposição quanto por aliados, em um contexto que pode redesenhar o equilíbrio político europeu.
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