O aumento de temperaturas extremas não tem sido suficiente para conter a expansão do ceticismo climático em parte da população da Alemanha. Segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Flensburg, publicado na revista científica Global Environmental Change, a descrença sobre as mudanças climáticas passou a ser tratada como um fenômeno de massa no país europeu entre 2022 e 2023.

Ceticismo cresce em meio ao calor extremo

Dos mais de 3 mil entrevistados pelo estudo, realizado em 2023, 59% declararam ter mais dúvidas sobre a mudança climática do que tinham no ano anterior. Esse aumento coincide com o registro de alguns dos anos mais quentes já documentados na Alemanha, que enfrentou seguidas ondas de calor e secas prolongadas durante o verão daquele período. A ocorrência desses extremos reforçou debates sobre a intensidade e a origem das mudanças climáticas, mas não reverteu a desconfiança entre grande parcela da população.

Razões políticas e desconfiança institucional marcam perfil dos céticos

Os autores do estudo, Katharina Gies e Emanuel Deutschmann, apontam que a situação socioeconômica dos alemães não foi a principal causa do crescimento do ceticismo. Fatores como orientação política à direita, descrença nas instituições estatais e insatisfação com a democracia foram mais determinantes. Esse perfil, segundo a psicóloga social Marlene Altenmüller, reforça que a percepção do risco climático varia conforme a identidade e valores do grupo ao qual a pessoa pertence – um fenômeno conhecido como "raciocínio motivado", no qual o indivíduo interpreta informações de acordo com suas convicções pessoais e ideológicas.

Da rejeição de políticas à crença em conspirações

O ceticismo climático se manifesta de formas diversas: desde a rejeição de políticas de combate ao aquecimento global (por acreditar que o problema não é grave ou não é causado pela ação humana), até a convicção de que todo o debate sobre o tema se trata de uma conspiração. Pesquisadores como Stephan Lewandowsky, especialista em ciência cognitiva, estudam como teorias da conspiração e desinformação persistem e impactam tanto o debate climático quanto questões como vacinação.

Nesse contexto, as crises globais recentes, como a pandemia de covid-19, demonstraram que parte da população recorre a teorias conspiratórias como resposta ao medo e ao sentimento de perda de controle, segundo Lewandowsky. Ele alerta, porém, que esse caminho pode prejudicar saúde mental e vínculos sociais no longo prazo.

Experiências pessoais e comunicação eficaz

Para povos expostos cotidianamente a consequências diretas das mudanças climáticas, como na Índia ou em países do Sul Global, a descrença tende a ser menor devido à percepção imediata de ameaças, como falta d'água ou eventos climáticos fatais. Mais de 10 mil mortes foram atribuídas ao calor extremo na Alemanha em 2026, exemplificando o impacto real dos fenômenos.

Pesquisadores apontam que as experiências individuais, sobretudo vivências extremas, podem alterar gradativamente a percepção sobre as mudanças climáticas. Eles ainda destacam que a comunicação deve focar não só nos riscos, mas também nas oportunidades criadas por políticas públicas para enfrentar o problema. Valorizar a pluralidade de fontes e porta-vozes – incluindo economistas e cientistas de diferentes áreas – pode tornar a mensagem mais acessível e confiável.

A ampliação do ceticismo climático é um desafio para a mobilização social em defesa da proteção ambiental e exige esforços contínuos de diálogo transparente e baseado em evidências.

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