O impacto da obesidade no desenvolvimento de câncer é maior do que se presumia. Um estudo recente liderado pelo Centro Alemão de Pesquisa do Câncer (DKFZ) revelou que até 11,5% dos casos de câncer podem estar diretamente relacionados ao excesso de peso. A descoberta ganha relevância especialmente para países como o Brasil, que registram aumento consistente das taxas de sobrepeso e obesidade na população.

Gordura abdominal sob os holofotes

De acordo com a nova pesquisa, fatores como o acúmulo de gordura abdominal têm papel determinante nesse risco. Diferente de estudos anteriores, a equipe do DKFZ utilizou, além do Índice de Massa Corporal (IMC), a medida da circunferência da cintura e a relação cintura-quadril para avaliar como a gordura se distribui pelo corpo. Isso porque a gordura na região abdominal, além de armazenar calorias, atua como "glândula" ao liberar substâncias chamadas adipocinas, capazes de promover processos inflamatórios crônicos no organismo.

Essas respostas inflamatórias alteram funções metabólicas essenciais e podem favorecer o crescimento e a divisão descontrolada de células – cenário propício para o desenvolvimento de tumores. Entre os tipos de câncer mais impactados pelo excesso de peso e gordura abdominal estão:

  • intestino
  • mama
  • fígado
  • útero e ovário (no caso das mulheres)

Metodologia inovadora revela riscos subestimados

Uma das inovações do estudo foi considerar o impacto da perda de peso pré-diagnóstico de câncer. Pesquisas anteriores poderiam subestimar o vínculo entre obesidade e câncer porque pacientes, antes de saberem da doença, já estavam perdendo peso devido ao avanço silencioso do tumor. Para solucionar isso, os cientistas desconsideraram os primeiros sete anos de acompanhamento dos participantes, incluindo na análise apenas os diagnósticos ocorridos após esse período.

O levantamento se baseou em dados de 458.543 homens e mulheres do UK Biobank, acompanhados durante uma média de 12 anos, e resultou em cerca de 50 mil registros de câncer. As conclusões reforçam que, além dos conhecidos riscos para doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, o excesso de peso possui impacto significativo sobre diversos tipos de câncer.

Mulheres apresentam risco ainda maior

O estudo também destaca que a proporção de mulheres que desenvolvem câncer associado ao excesso de peso é maior que entre os homens. Segundo o epidemiologista Michael Leitzmann, isso pode ser explicado pelo fato de vários tipos de câncer relacionados à obesidade – como de mama, útero e ovário – estarem ligados a hormônios, especialmente o estrogênio. A gordura abdominal eleva os níveis desse hormônio, aumentando os riscos.

Apesar dos resultados relevantes, os autores do estudo sugerem cautela e recomendam que novas pesquisas com metodologia similar sejam conduzidas para confirmar os achados.

Prevenção da obesidade é aliada fundamental contra o câncer

O estudo aponta que a conscientização sobre o controle do peso não só segue sendo decisiva na prevenção de doenças cardíacas e diabetes, mas pode ter papel ainda mais importante na redução dos casos de câncer do que anteriormente estimado. Investir em políticas públicas, educação alimentar e promoção de atividade física se torna prioridade para limitar o avanço desses números no Brasil.

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