O clima do planeta está mudando de forma acelerada, e essa transformação já não permite que tenhamos de volta a atmosfera em que nascemos, alerta o climatologista equatoriano Raúl Cordero, professor da Universidade de Groningen (Holanda). Fenômenos como ondas de calor, incêndios florestais e inundações têm se tornado mais intensos e frequentes, caracterizando uma verdadeira epidemia de eventos climáticos extremos.
Atmosfera alterada e consequências duradouras
Segundo Cordero, a atmosfera do planeta foi profundamente modificada pelas emissões de gases de efeito estufa – especialmente o dióxido de carbono (CO2), cuja concentração atual é 50% maior do que há pouco mais de um século. Ele afirma que a reversão desse cenário será impossível em um futuro previsível, pois o CO2 permanece na atmosfera durante cerca de um século. Dessa forma, as ações de hoje influenciarão o clima por gerações.
“Não devemos nos acomodar, porque ainda é possível evitar que a situação piore. Se não reduzirmos as emissões, continuaremos agravando as alterações climáticas e a frequência dos extremos”, reforça Cordero.
Eventos extremos: a marca de nosso tempo
Os impactos já são visíveis em várias regiões do mundo. Relatórios indicam que os anos entre 2015 e 2025 foram os mais quentes já registrados. Casos recentes, como os megaincêndios na Europa e as fortes ondas de calor, mostram o poder devastador do novo cenário. Só na França, mais de 200 mil pessoas foram evacuadas em julho devido aos incêndios. Entre as manifestações mais letais do aquecimento global estão as ondas de calor, que já causam centenas de milhares de mortes por ano, embora a maioria não seja registrada oficialmente como resultado direto do fenômeno.
O climatologista destaca ainda que há uma grande diferença no ritmo de aquecimento entre os hemisférios: enquanto o hemisfério norte responde quase duas vezes mais rápido à elevação das temperaturas, o sul sofre impactos mais lentos devido à presença predominante de oceanos e à particularidade da Antártida.
El Niño, Amazônia e desafios para o Brasil
A combinação de mudanças climáticas e do fenômeno El Niño provoca secas mais severas na bacia amazônica devido ao ressecamento do solo por altas temperaturas, com impactos graves para ecossistemas e populações locais. Ao mesmo tempo, outras regiões do Brasil podem registrar chuvas intensas e eventos extremos ainda mais agudos.
O aquecimento global amplifica tanto episódios de seca como de chuvas intensas, agravando problemas históricos de gestão hídrica e pressão sobre florestas, o que exige políticas públicas mais efetivas no território brasileiro.
Perspectivas de esperança: mitigação e adaptação
Apesar do cenário de alerta, Cordero demonstra otimismo quanto à mitigação. Ele destaca o avanço da transição energética em países em desenvolvimento e no chamado sul global, além do desenvolvimento de tecnologias que facilitam a adaptação. O cientista lembra do sucesso no controle do buraco na camada de ozônio como exemplo: com cooperação internacional e tecnologias adequadas, é possível enfrentar desafios planetários.
Contudo, o consenso científico permanece menos otimista e indica que apenas uma ação global coordenada pode estabilizar o clima e garantir um futuro menos turbulento.
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