As alterações recentes no regime de chuvas da Amazônia vêm sendo registradas de forma inédita por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que usam isótopos da água para rastrear a origem e a composição das precipitações. O monitoramento diário em Manaus (AM), iniciado em 2023, mostra que grandes eventos climáticos, como o El Niño e o aquecimento anormal do Atlântico Norte, alteram profundamente a dinâmica da umidade que chega à floresta.

Nova abordagem científica detalha dinâmica das chuvas

O estudo marca o retorno das técnicas isotópicas — que analisam versões mais leves ou pesadas de átomos na água — após mais de três décadas sem uso sistemático na região. Liderado por Rafaela Rodrigues Gomes, doutoranda do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Unesp, o trabalho contou com o apoio de instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB). Entre março de 2023 e fevereiro de 2025, os pesquisadores coletaram 207 amostras diárias de chuva em Manaus, possibilitando um retrato detalhado dos processos atmosféricos em diferentes estações.

O papel dos isótopos como "impressão digital" da água

Isótopos são variantes de elementos químicos com diferentes massas. Quando analisados na água, revelam sua origem e percurso: moléculas mais leves evaporam com facilidade, enquanto as mais pesadas condensam primeiro. Condições como temperatura e umidade mudam a proporção desses isótopos, funcionando como uma espécie de impressão digital das chuvas.

A equipe demonstrou que, durante o trimestre chuvoso de março a maio, a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) domina o padrão isotópico, favorecendo a chegada de umidade do Atlântico Norte. Já nos meses secos, outro sistema, a Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS), faz com que isótopos pesados prevaleçam, resultando em menor volume de chuvas.

Mudanças climáticas e novos alertas para secas

A comparação dos dados atuais com amostras coletadas entre 1965 e 1990 revelou alterações vinculadas a um cenário mais quente e seco, agravado pelos eventos extremos de 2023 e 2024. Nesses anos, com secas históricas na Amazônia, os pesquisadores notaram que o sinal típico da estação seca apareceu antecipadamente durante a estação chuvosa. Esse fenômeno indicou maior concentração de isótopos pesados já em maio, mês em que normalmente predominariam os leves.

Segundo a responsável pela pesquisa, isso pode servir como indicador precoce de secas intensas. O geólogo Didier Gastmans, coordenador do Laboratório de Recursos Hídricos e Isótopos Ambientais (LARHIA/Unesp), reforça que a técnica pode ser incorporada como alerta de baixo custo, mas alerta para a necessidade de séries de dados longas — pelo menos duas a três décadas — para consolidar previsões confiáveis.

Futuro do monitoramento isotópico na região

O trabalho deve se expandir para demais pontos da Amazônia, com coletas em diferentes regiões para mapear como a umidade vinda do Atlântico se desloca e influencia precipitações em outros biomas brasileiros. A expectativa é que a abordagem aperfeiçoe a detecção de riscos de estiagem, essencial para adaptação de políticas locais diante das mudanças do clima.

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