O avanço das tecnologias de energia renovável, como painéis solares, turbinas eólicas, baterias e células de hidrogênio, vem acompanhado de um desafio silencioso: o uso dos populares 'químicos eternos', conhecidos cientificamente como substâncias per- e polifluoroalquiladas (PFAS). Esses compostos sintéticos, presentes em mais de 10 mil formulações industriais e comerciais, persistem por séculos e já foram amplamente detectados na água potável, inclusive no Brasil.
Químicos eternos e riscos à saúde
Estudos científicos associam a exposição a determinados níveis de PFAS a riscos como câncer, problemas imunológicos, infertilidade e atraso no desenvolvimento infantil. Por essa razão, países incluindo França, Nova Zelândia e Dinamarca baniram algumas fontes notórias desses químicos, como sprays impermeabilizantes, panelas antiaderentes, embalagens e espumas de combate a incêndios. No Brasil, o tema desperta atenção de órgãos reguladores, que analisam medidas semelhantes para proteger a população.
Debate internacional e resistência industrial
A União Europeia propõe uma proibição abrangente dos PFAS, incluindo os fluoropolímeros valorizados pela indústria por sua resistência a altas temperaturas e ampla utilização em equipamentos de energia verde. No entanto, representantes do setor químico, como a Performance Fluoropolymer Partnership (PFP) — que inclui gigantes como Chemours e 3M —, argumentam que a proibição enfraqueceria metas climáticas e comprometeria a transição energética. Apesar das justificativas, órgãos ambientais europeus alertam que, mesmo menos problemáticos, esses polímeros degradam-se lentamente, liberando PFAS no meio ambiente ao longo de seu ciclo de vida.
PFAS na matriz energética e alternativas viáveis
Os PFAS estão presentes em produtos essenciais para a transição sustentável, como baterias de íon-lítio, painéis solares e fluídos refrigerantes de bombas de calor e aparelhos de ar-condicionado. A preocupação aumenta por causa do alto potencial desses compostos agravarem o aquecimento global — alguns gases PFAS são até milhares de vezes mais potentes que o dióxido de carbono. Além disso, eventos como vazamentos contribuem para a poluição ambiental e o risco à saúde.
Apesar do complexo cenário, organizações ambientais e científicas sugerem várias alternativas já disponíveis. Bombas de calor podem, por exemplo, utilizar propano como refrigerante, reduzindo riscos ambientais. Empresas europeias investem em células solares e tintas para turbinas eólicas sem o uso de fluoropolímeros. A Chemours, fabricante relevante, prometeu reduzir 99% das emissões de PFAS até o final desta década, em comparação a 2018.
Caminhos possíveis e o desafio para o Brasil
No Brasil, o debate sobre o uso e a regulação dos PFAS é emergente, mas especialistas já cobram transparência sobre a presença desses compostos em produtos importados e nacionais. Pressiona-se pela expansão de alternativas tecnológicas limpas e pelo incentivo à indústria para acelerar transições para insumos menos duradouros no ambiente.
Como afirmam líderes ambientais internacionais, só haverá mercado para inovações se houver regulação que limite substâncias comprovadamente perigosas. No contexto brasileiro, onde a preocupação com recursos hídricos e poluição urbana cresce, a busca por alternativas aos químicos eternos é não apenas urgente, mas essencial para garantir a saúde da população e a competitividade verde do país.
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