O fenômeno El Niño, que ocorre periodicamente com o aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico tropical, é monitorado com atenção global e pode em 2026 atingir sua maior intensidade em mais de cem anos, de acordo com previsões de meteorologistas internacionais. Esse cenário traz a possibilidade concreta de 2027 se tornar o ano mais quente já registrado na história contemporânea do planeta.

O que é o El Niño e como ele afeta o clima?

O El Niño faz parte do ciclo de Oscilação Sul-El Niño (ENSO), um processo natural que altera a circulação atmosférica e oceânica global. Durante o fenômeno, os ventos alísios enfraquecem, permitindo que águas quentes do Pacífico se desloquem do oeste para regiões próximas à América do Sul. Isso acarreta não só elevação das temperaturas da superfície marítima, mas também impactos expressivos sobre padrões de chuva e eventos extremos em diversas partes do mundo.

Michelle L’Heureux, coordenadora do time de ENSO no Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), destaca que "um evento de El Niño mais forte pode ampliar o impacto climático esperado", ainda que existam variações no padrão e na intensidade dos efeitos globais. Entre os impactos já apontados estão secas severas, como na Indonésia, onde incêndios florestais devastaram centenas de milhares de hectares devido à falta prolongada de chuvas.

Projeções alarmantes para 2027

Segundo o painel internacional Climate Brink, a região do Pacífico conhecida como Niño 3.4 registra atualmente temperaturas 2,6 °C acima da média histórica. As projeções apontam que esse valor pode atingir 3,9 °C em novembro de 2026, superando largamente o recorde anterior do El Niño de 2015. O efeito pleno desse fenômeno tende a ser sentido especialmente em 2027, aumentando em até 0,3 °C a tendência de aquecimento global já observada.

Com base nos cálculos dos cientistas Zeke Hausfather e Andrew Dessler, a temperatura média global pode alcançar 1,76 °C acima dos níveis pré-industriais. Esse salto, normalmente esperado para ocorrer apenas após 2035, pode ser antecipado por causa do El Niño excepcionalmente intenso.

O papel das mudanças climáticas

Pesquisadores concordam que a crise climática global, impulsionada pelas emissões de gases de efeito estufa, intensifica os efeitos do El Niño. Uma atmosfera mais quente retém mais umidade, provocando chuvas torrenciais em algumas regiões e agravando secas em outras, o que pode gerar perdas econômicas, desafios ao agro e ameaças à segurança hídrica e alimentar.

Há também indícios de que os próprios episódios de El Niño têm se tornado mais intensos nas últimas décadas devido ao aquecimento dos oceanos tropicais. Não há consenso total sobre esse ponto, mas estudos sugerem um aumento de cerca de 10% na intensidade média dos episódios desde o século XIX. Segundo Mike McPhaden, cientista sênior do Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico da NOAA, "as mudanças climáticas podem estar amplificando o próprio ciclo do El Niño".

Monitoramento e perspectivas futuras

O NOAA utiliza atualmente o Índice Oceânico Relativo do Niño (RONI), indicador moderno que compara o aquecimento da região Niño 3.4 ao de toda a faixa tropical dos oceanos, tornando a análise mais precisa para prever os efeitos do ENSO. As probabilidades apontam que há 69% de chance do episódio de 2026 ser o mais forte desde 1950.

Para o Brasil, anos de El Niño tendem a trazer desafios extras em diversos biomas, com o risco de secas mais severas no Norte e Nordeste e chuvas intensas no Sul. Agricultores, gestores públicos e sociedade civil devem redobrar a atenção para os impactos previstos.

O monitoramento constante do fenômeno será essencial ao longo de 2026 e 2027 para ajustar estratégias de adaptação e minimizar as consequências no país. Fique por dentro das últimas notícias sobre clima e El Niño em amazonclimate.live.