Após séculos de especulação e muitas lendas, cientistas finalmente explicaram por que a presa do narval — aquele mamífero marinho famoso por seu “chifre de unicórnio” — cresce reta, mesmo atingindo tamanhos impressionantes de até três metros. Uma pesquisa publicada na revista científica Nature Communications, em 18 de junho, apontou para uma solução menos mística e mais engenhosa: a chave está na estrutura interna do dente.
Estrutura interna com dupla espiral garante estabilidade
Utilizando avançadas técnicas de imagem por raios X tridimensionais, pesquisadores de diferentes países analisaram em detalhes a composição da presa do narval. Eles descobriram que a parte externa, chamada de cemento, forma uma espiral que gira para a esquerda. Já o interior, composto por dentina, se enrola em uma espiral no sentido oposto.
Segundo o professor Henrik Birkedal, químico de materiais da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, essa configuração cria um mecanismo de equilíbrio na presa. “Propomos que essa estrutura ajude a presa a crescer reta, ao contrário de outras presas, como de elefantes ou morsas, que são curvas”, explica o cientista.
A dupla espiral gera forças contrárias entre as camadas interna e externa, o que confere à presa do narval uma resistência mecânica superior e um formato exclusivo. O material principal é colágeno mineralizado, cujas fibras microscópicas são reforçadas com nanopartículas de minerais à base de cálcio, tornando a estrutura forte e relativamente leve.
Inspiração para novos materiais
A descoberta pode ir além da biologia: cientistas acreditam que esse arranjo natural da presa do narval pode inspirar o desenvolvimento de novos materiais sintéticos para a engenharia. “Achamos que isso pode vir a servir de inspiração para o desenvolvimento de materiais”, afirmou Birkedal. A aplicação pode beneficiar áreas como construção civil, próteses médicas e equipamentos esportivos, onde rigidez e resistência são desejadas sem aumentar o peso.
Função da presa e a mística do 'chifre de unicórnio'
Ainda há dúvidas sobre a função exata da presa do narval. Principalmente observada nos machos, ela pode estar ligada à disputa por parceiros ou à hierarquia social da espécie. Alguns pesquisadores sugerem ainda que existam funções sensoriais ou de comunicação entre os animais.
As lendas envolvendo o animal começaram no século XVI, quando marinheiros vendiam as presas como verdadeiros “chifres de unicórnio”. No século XVII, o naturalista Ole Worm relacionou o dente do narval ao lendário chifre, atribuindo a ele propriedades mágicas e status de símbolo de prestígio. Exemplo disso é a cadeira de coroação dos reis dinamarqueses, confeccionada com presas de narval e exibida até hoje no Castelo de Rosenborg, em Copenhague.
Diversidade marinha e contexto global
O narval (Monodon monoceros) vive predominantemente nas águas do Ártico, próximo ao Canadá, Groenlândia, Noruega e Rússia, chegando a até cinco metros de comprimento. Alimenta-se de peixes, lulas e camarões. Sua coloração muda com a idade, indo do azul-acinzentado nos filhotes ao branco na velhice.
Compreender estruturas tão únicas reforça a importância da pesquisa científica sobre a biodiversidade marinha. Descobertas como essa facilitam o estudo de biomateriais e contribuem para conservar espécies exóticas e emblemáticas como o narval.
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