O escritor e diplomata brasileiro Alexandre Vidal Porto, atualmente cônsul-geral em Amsterdã, retorna ao cenário literário com o livro "Só Depois Entenderei" (Companhia das Letras). A obra acompanha a vida de um diplomata brasileiro em Nova York nos anos 1990, abordando temas como amor, sexualidade e autoconhecimento, numa narrativa intimista que convida à reflexão sobre o entendimento dos próprios sentimentos ao longo do tempo.

Vidal Porto, de 61 anos, expressa que seu projeto literário parte do desejo de ser um guia para outros leitores e escritores. Inspirado por versos do poeta americano Walt Whitman e do português Fernando Pessoa, o autor enxerga sua escrita como um elo que une gerações e experiências. "Eu me proponho a ser um guia", afirma, ressaltando que sua literatura também serve como um mapa para quem busca respostas para questões internas.

O enredo e a relação com o autor

No romance, o protagonista, diplomata em Nova York na década de 1990, se aventura nas antigas salas de bate-papo online, cenário prévio aos aplicativos de relacionamento atuais. Lá, inicia uma relação intensa com um homem casado, vivenciando ao longo dos anos descobertas sobre si mesmo e sobre o amor. O texto econômico de Vidal Porto acompanha transformações emocionais e sociais, mostrando que a compreensão profunda de um relacionamento muitas vezes só chega com o passar do tempo.

O autor deixa claro que, apesar das semelhanças entre sua trajetória e a do personagem — profissão e orientação sexual —, a obra não deve ser encarada como autoficção. "Uso meus livros como auxiliar à psicanálise", comenta o escritor, que dedica a publicação ao marido e ao psicanalista. Vidal Porto explica a partir de metáforas essa relação entre autor, personagem e leitor, dizendo que "empresta seu corpo" fictício ao protagonista para explorar novas vivências.

A escrita como solidariedade e processo criativo

Durante participação recente na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, Vidal Porto reforçou sua postura colaborativa no universo literário. Relembra grandes nomes que o apoiaram no início, como o escritor amazonense Milton Hatoum e Luiz Ruffato, destacando a importância de aprender e ensinar na convivência com seus pares, especialmente jovens autores. Para ele, guiar novos escritores é uma questão de solidariedade, e não de obrigação social. "É lindo ver um garoto de 25 anos com meu livro, os olhos brilhando", comenta.

O autor utiliza imagens marcantes para expressar o processo de escrita, comparando-o ao âmbar produzido por baleias: algo bruto, a ser trabalhado e lapidado. "Tem que vomitar tudo. Encontre o âmbar no vômito e só depois comece a trabalhar com ele", aconselha.

Impacto e legado na literatura contemporânea

Reconhecido pelos romances "Cloro" (2018) e "Sodomita" (2023), Alexandre Vidal Porto reafirma em "Só Depois Entenderei" seu papel de voz relevante na literatura LGBTQIA+ e na cultura brasileira, abrindo espaço para narrativas diversas e autênticas sobre amor e identidade. O lançamento reforça seu compromisso com a escuta, o diálogo e o incentivo a novos talentos literários, desempenhando função significativa de ponte entre gerações na literatura nacional.

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